quinta-feira, 30 de junho de 2011

Capítulo 3 - Receita.

"Sonhe com o que você quiser. Vá para onde você queira ir.
Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida
e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades
para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E
esperança suficiente para fazê-la feliz."

Clarice Lispector

Não interessa os motivos que tive para viajar. Só digo que foi a trabalho e se tornou algo mais especial do que imaginei. Steves se aproximou no segundo dia de viagem e disse-lhe o nome que eu nem cogitei perguntar. Tenho alergia a romances impossíveis. Como eu sei que é impossível? Bem, eu não sei. Sempre que leio um texto lindo de Clarice, que começa “Sonhe com o que você quiser...” me lembro do conceito que tenho de como essa mulher de alma clara e complicada (irônico, não?) sobreviveu. Creio que ela encarava a vida como metades. Sabe? Metades inteiras? Não, provavelmente não sabe. E eu também não sei explicar-lhe. Entretanto imagine um grande balde de água quente e outro de água fria, bom, você pode se jogar no frio e congelar, você pode se jogar no quente e se queimar. Clarice decidiu esperar o outro esfriar de forma que pudesse chegar perto, enquanto esperava escrevia sobre seu processo, sobre sua impaciência. Ao acabar, se jogou na água morna. E então você questiona “ O que fez com a fria?” bem, ela escreveu sobre a agonia de esperar esta água esquentar num dia frio. Lembro também que ela disse “... Porque você só tem uma vida”. E então eu completo com meu fracasso de poeta “... Porque você só tem uma vida... Nunca desperdice algo”
Querida Clarice, adoraria encaixar-se em teus conceitos e apoderar-me de tuas palavras e fazê-las real em meu ser. Como disse, “ Você só tem uma vida” e enquanto isso para alguns serve para fazer-lhe o que lhe der na telha, para outros como eu; isso significa possuir só uma chance; uma chance e seja lá o erro que cometer, ele será presente na sua lembrança. Queria ser Clarice, queria ser poeta e queria viver num mundo assim, onde as teias de aranha não atrapalham a visão. E se atrapalham, bem, ela sabe lhe dar com isto.
Queria um mundo onde a chuva e a noite são cenários de belas paisagens. Sim, eu acho que são realmente. Mas não quando você está andando perdida num rumo incerto. Quando os sonhos que você sonhou te derrubarem fazendo a sua imaginação ter pesadelos, saberá do que falo. Porém não pense nisso, não pense no amanhã, não pense não pense; não siga meu (mau) exemplo.
Ás vezes parte de sua vida pode estar perfeita enquanto a outra agoniza por socorro. Não há o completo perfeito. Há os pedaços, somente. Um “momento” perfeito. Um beijo, um abraço; que seja. Apenas pedaços pequenos que não podem ser rastejados por toda a sua vida. Ele acaba. O momento, o beijo, o abraço. Eles se vão. E mesmo que a lembrança lhe ajude, o seu presente altera tudo.
Eu não quero mais somente existir.
_Steves, o que a vida significa para você?
- Como?
_É isto mesmo, o que a vida significa para você?
_Bom, a vida para mim é um bolo gigante, se faltar algum ingrediente tudo pode ir por algo á baixo.
_A minha mãe inventava receita de bolos.
_Bom, na vida você também pode inventar sua receita. Só não desanime se o bolo murchar, sabe, existe outros ingredientes por ai, de melhores qualidades. Faça outro. E tenha paciência nisso.
_Engraçado falar em vida comparado a bolo. Sabe qual o seu erro? Não dá pra fazer outra vida.
_ Bem Dafnee, um dia a minha mãe esqueceu o fermento no bolo, bom, sabe o que ela fez? Desmontou e fez biscoitos. A gente talvez não saiba o que quer até o momento de errar. Os biscoitos soaram mais simpáticos que jogar o bolo fora.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Web série: A viagem. Cap 2 : O começo

Meu nome é Dafnee.
Eu vivo em outro mundo, sou uma estranha. Durmo em cima de um labirinto e acordo em cima da neve.
Ok; é só a fronha do meu travesseiro.
Mas...
Se eu fosse ao pé da letra isso significaria que durmo pensando no que vou fazer e acordo num frio que desisto de levantar. Todas as manhãs. Fico assim sem se mexer, sem tomar atitude. E volto a dormir a noite numa busca interminável pelo prêmio tão esperado ao fim do labirinto. Prêmio esse que não vou atrás. Essa é minha vida interior.
Porque na verdade mesmo sem querer levantar, é isso que faço.
As pessoas normalmente ficam confusas com o que digo, percebo por vezes o vácuo, e por mais vezes ainda o vácuo oculto. E então quando digo “Vácuo oculto” ninguém entende. Possa ser que não há mesmo um sentido para outros. Mas para mim, muitos detalhes são o centro. Vácuo = ficar sem resposta. Oculto = escondido. Vácuo oculto = uma reposta que está ali, escondida, com medo de mostrar as caras. Ficar sem reposta porque a outra pessoa tem medo de responder. E se você não entendeu, fique traquilo. Eu tenho mesmo a facilidade de embaraçar as coisas. Não é você que está certo, eu é que vivo errada.
Medo.
Aquele que não tem medo que se jogue de uma ponte. Não. Aquele que se jogar de uma ponte está fugindo de algo. Por medo. Todos aqueles que têm a capacidade de respirar tem medo de alguma coisa. É nisso que acredito, e tenho MEDO de vocês.
Vocês.
Vocês; pessoas, seres impulsivos, dissimulados, loucos por amor, malucos por dinheiro. Honestos demais, puros demais. Impuros demais, desonestos demais. Vocês, que circulam numa sociedade corrupta e cheia de paixão e ódio. Vocês que tem vários caminhos e endoidam de pensar em algo simples. Vocês; eu. Eu faço parte disso.
Fui a criancinha do papai por 20 anos. Sai de casa aos 20 e meio. Voltei aos 21. Não sou mais a criancinha.
Como vocês percebem, andar com as próprias pernas é só o ditado mais estúpido que eu conheço. E o que eu mais uso. “Preciso caminhar com as minhas próprias pernas”. Acredite, as pernas são o que você não terá óbice de levar. Difícil mesmo é caminhar com seu coração, com seu sentimento, com sua raiva, seu momento, seus dias de terror, seus dias mal humorados, sua irritação, o seu chefe em mente, o trabalho. As pernas ficam como pena perto da mala de problemas.
Ah claro, não pensem que sou uma vagabunda. Pelo o contrário, meus caros. Eu sou uma insana por estudos. E, estou cansada do que costumo mais apreciar.
Veja bem, me compreendam. Please.
Não é que não quero casar, ter filhos, fixar-me de vez no emprego e arrumar os alicerces de minha efêmera passagem por esse planeta chamado Terra.
É que quero explorar, quero viver mais. Viver; sabe? Viver mesmo.
Viver no dicionário “Ter vida. Existir. Durar, perdurar. Alimentar-se. Ter como meio de vida. Passar a vida. Dedicar-se inteiramente. Conviver.”
Ao pé da letra, ok.
Entretanto nem sempre “ao pé da letra” faz mais sentido.
Do que adianta existir, se você é imóvel?

terça-feira, 21 de junho de 2011

Web série: A viagem. Capítulo 1: Libertando-se

Era pra ser uma viagem muito longa; maçante, entediante. Tudo estava certo para dar errado. Pessoas soadas, ônibus lotado e minha (falsa) vontade de viajar.
Na verdade o que eu queria mesmo era sentar numa moto e ir sozinha até um ponto inalcançável. Mas baby, as coisas não me permitem fazer isso no momento e tive que ir assim mesmo, numa estrada esburacada para um passeio furado.
O céu estava claro, então pensei “Pelo menos isso” quando entrei no ônibus. Encarei momentaneamente as quatro pessoas que se sentavam a esquerda, eram pessoas parecidas. Talvez não fisicamente. Entretanto aqueles olhos cansados de alguém que vai trabalhar para botar alimento na boca nos filhos eram semelhantes. A tristeza oculta. A felicidade pra não chorar.
Sentei.
Aguardei assim como todos; os outros 17 passageiros entrarem.
“Droga” falei mais alto do que devia; quando percebi que havia esquecido o meu livro.
É; as coisas pareciam ficar piores.
O motorista deu partida e seguiu em frente. Eu era só mais uma estrela no céu. Eu era essa só mais uma bolacha no pacote.
Não sei. De uma hora para outra eu já estava deitada na poltrona e meus olhos lacrimejavam. Virei o rosto e elas desceram quando senti a mão de Steves me tocar. Agora eu sei o nome dele.
“Desculpe” – disse. “O cara do meu lado não me deixa dormir. Vi que aqui estava vazio e vim para cá. Você estava dormindo, não quis acordar. Se importa se eu ficar aqui?“
Eu sempre fui uma pessoa “esquentada” e a atitude de enxugar os meus olhos irritou-me por instantes. “ A graça está no ocasional”, disse-me Matheus uma vez. Vou embarcar nessa.
“Ok, pode ficar”
E essas palavras alteraram o contexto...